Ululante Beatriz

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Se da dádiva do céu risonho e límpido
Não posso, ávido, quiçá nele tocar,
Qual o brilho do teu virgem rosto vívido
Também mão minha não passa por lá.

Se o teu rosto branco pálido qual mar
Noturno, como este som de toda parte,
Faz-me úlceras em toda pele por amar-te
E mata-me de tristezas e enterra-me a pá.

Se em ti busco o ar do alento e conchego
Esforço-me para que o amor se construa
Sobre os miúdos blocos de tua pele nua,
Até que eu habite nesse templo grego.

Se as estrelas têm de ti ácida inveja,
A lua, ao teu lado, ganha luz própria
E todos se voltam para vê-la: a régia
Que, vitoriosa, sob vinhos, sê sóbria.

Se de todas as meninas, sê tu a diferença;
De todas minhas rezas, sê minha crença
E conquiste-me: o peito, a boca, a língua
Tão única por cujo grande lábio distingo-a!

Se teus pelos virgens de lâminas e pentes
Não veem teus grandes lábios e teus dentes,
Vejo eu, feito um bravo e forte bandeirante 
A pelejar na mata de minha doce amante!

Se brincas de elegias, ora de noite, ora de dia
A cantarolar Pai Nosso, Novenas e Ave Maria
Cante também para mim, ó doce alecrim 
Que sob minha íris jorra teu sangue carmesim

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
se um suspiro no seio treme ainda,
é pela virgem que sonhei… Que nunca
aos lábios, encostou-me a face linda.

Só tu à mocidade alcança
E ao pálido poeta deste flores…
Se vivi, foi por ti! E de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Se a vida é lírio que a paixão desflora
Meu lírio virginal eu conservei…
Somente no passado tive sonhos
Que outrora nunca amei!

Se tu se faz de alvo azedo repleto de medo
Eu ponho-me sobre punhais, gins e tais 
Machuco-te, tal quando engano-me em ledo
E perco-me da sombra da pomba da paz
Cuja mente minha sem ti não tem paz

Se te quebras em pedaços mil feito giz
Cuspo minh’alma como liga de cimento 
E reconstruo-te os fios para que fiques feliz
E, longe deste país, dar-te dor e beijo lento

Se me torturas com requintes de crueldade
À força eu falo: tenho daquilo mui saudade
E todos se reúnem para ver: a dor do espéculo
Na trama, no cinema, no poema: o amor do século

Se vejo tua silhueta sinuosa como um S
Desce aqui um anjo, como se houvesse
Fogo pairando sobre mim e consumindo
De tudo o meu ser. Ah, já vou indo…

Se tu me tens como comédia
Eu te tenho como divina
Se me dás a pele fina e alpina
Dou-te a boca para puxar a rédea

Gabriel Albuquerque

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