Senhora Mirella

Mirella era a aquela paquera
Minha e de todos moleques
(e de todas as molecas!)
E todos se fingiam de pileque
Pra impressionar a primavera
Era moda à época:
Álcool, Tim e Jor
À espera da trégua
Do pingar do suor
Mas éramos todos moleques...
Mirella é fera, Mirella devora
Seu apelido era primavera
Ora, ela era aquela à espera
Da volta de seu pai outrora
Que se foi, e hoje, morre de vez
E cada vez morre mais
Um dia por mês
Por vários carnavais
E quando seu pai morreu
Mirella regava todo dia
Todo dia uma flor amarela
Era a flor amarela da Mirella
E dizia que era pra primavera
À espera, à espera, à espera
Mirella era aquela
Com jeito estranho
De ter fé na vida
Mirella era aquela
Que espionava o banho
Das meninas de torcida
E tínhamos onze...
E tínhamos onze...
E eu estava com ela...
Tendo fé na vida
Espionando meninas
Aos onze, aos onze
Cobrindo-me de seu véu preto,
Pleno e de paz, que de tão bela
Jazia em meu corpo
que também era dela
E que também se chama Mirella.
É como se fosse um anagrama
De mirá-la, mirar ela. Cada grama
De seu nome tem um peso...
Tem gana, força e desejo!
A linda casa da Mirella
Era de parede amarela
E seus pais eram de dor
Diziam: "pare de amar ela
Entre vocês dois não há amor"
E tínhamos onze anos...
Conheço cada pintinha dela
Ligaria os pontinhos aos beijos
Como uma mapa astral no jeito
Em que cada pontinho revela
A imensidão do corpo dela:
Onde gozo nesta forma de cela
E gozávamos... Nos divertíamos...
E a nossa diversão era sair escondido
Ah, era tão legal... Tínhamos onze
Quando a pureza supera
Não há mal que suporta
E o céu abre-nos a porta
Da mulher-fera que era
Antes de partir
Aos onze
Aos onze éramos da América do Sul
Sulamérica, sul da América
South America!
Quando naquela vez que nos vimos nus
Jus à fama que carregávamos na escola
Cartola nos ouvidos; nas bocas, acerola
Cajus, cajás, bananas e muitos beijos
E tínhamos onze
Quando partiste
E fiquei triste
E olhava aquele
Anel de bronze
Que servia-lhe
Como aliança
E emanava dele
Uma esperança
Da chegada
Da primavera
Onde nosso futuro
Recomeça
Ó, Mirella, ainda consigo te ver
Além, muito além do teu ser
Além, muito além daquela serra
Que ainda azula no horizonte
No fronte da guerra pela terra
Onde nasceste, onde nasce Mirella
A virgem dos lábios de mel
De cabelo mais negro que o negro
Da asa da graúna, de um negro mais sutil
Negro como os tipos negros que compõe
A palavra Anil
De pele mais pungente que a aquela gente
Desonesta, branca e comovida
Que caminha para morte
Pensando em vender nossa vida