Carta (mediúnica) de Lampião

pt

Recado de Lampião

Médium:

Aqui encontro-me no campo
da poesia rimada,
pois a pena do poeta
nunca pode estar parada.
Porque pena preguiçosa
não faz sucesso em nada

Por isso me destinei
(quero dizer, botei a pena na mão...)
para versar este canto
com devida precisão.
O seu nome, ei-lo adiante:
Carta de Lampião

E com licença dos poetas
que são de primeira linha
quero descrever os atos,
com a fraca rima minha,
de Lampião, quando morre
e onde começa a ladainha

Lampião:

Prepare o seu coração
Pro o que eu vô contar
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar
Pois quem fala é Lampião
E falo direto do Ceará

Ceará que era refúgio
Do cangaço embicado 
E agora, veja, eu fujo 
Do inferno onde fui jogado
E, agora, veja, estou sujo
Pois passei pro outro lado

Eu não sei por que cheguei
Mas sei tudo quanto fiz
Maltratei, fui maltratado
Não fui bom, não fui feliz
Não fiz tudo quanto falam
Não sou o que o povo diz

Virgulino Ferreira é meu nome
Pra você que não me conhece
Saiba que é duro o que passo 
Até São Miguel, dono da prece
Sabe que sou o rei do cangaço.
Mas nem tudo é o que parece...

No ano de 1897 
Nascia o menino de reza 
Era num dia sete
Em Serra Talhada, Vila Bela
De couro no berço
Já fazia disso minha sela

E quando cresci fui vaqueiro
Vivi e aprendi com o gado
E cuidava como ninguém
Dos meus bois deste Estado
Andava pela caatinga quente
Pelas fazendas e pelo roçado

Vendia meus bois a preço de direito
e o sertão era terra do mais forte:
dos ricos, proprietários de respeito
e dos poderosos, sem medo da morte
Porque aqui no sertão e no Norte
não há sorte que escape de um tiro no peito

E naquele ano de quinze 
Um safado me roubou...
Era capacho de José 
Saturnino e de ódio eu vou
Acusá-lo de pegar os meus
Bodes: a guerra começou

Ah mas eu não deixei barato, não!
Depois de 4 anos virei bandido 
Eu e meus irmãos tomamos o nosso
E comecei a ficar conhecido
Como justiceiro, o demônio do Sertão
Mas perdi o que não podia ter perdido

Fui manso como um cordeiro
Mas meu pai morreu assassinado
Me senti injustiçado, e, com razão
Me tornei, então, justiceiro renomado
Do relho de comboieiro desgraçado
E troco pelo mosquetão chegado

Com tudo isso não se confunda
Sou Lampião, o rei do cangaço
E esquece o burro e o surrão 
De frete, tropa, corda e laço
Fui ganhando meu espaço
De assombrar e ajudar o sertão

Fui chamado de herói, bandido e louco
Sou um verdadeiro mestre sem estudo 
Um verdadeiro gênio acima de tudo
Mas que obtive o mal como pouco troco
E me tornei o que sou, frio, soberbo e mudo
Contudo não me arrependo de abrir cavouco

Enfrentava as polícias
Sempre saía vencedor!
E vivendo pela Caatinga 
A notícia se espalhou:
Chegou no Prestes 
Que eu ia causar terror!

E os homens de terno de palinha 
Vinham e queriam se juntar a mim
Em 26, oferecendo a todos vocês
Fardas, facas, fuzis, dinheiro e gim
Vi meus irmãos morrerem de vez
E vi que a partir dali não teria mais fim

Em 29 conheci Maria Bonita
Ô, Maria, minha linda mulher
Tinha dezenove e era casada...
Pediu para ficar e falou que tinha fé
Deixou o sapateiro, incrédulo, para trás
Enrolou seu colchão e meteu-lhe o pé

Em 30 fui pela polícia emboscado 
Levei 7 tiros e não fui baleado
Mas acertaram-me um olho direito
E, com todo respeito, não fui afetado
Pelo contrário: não errava um sujeito
E, mesmo sem ver, ainda era perfeito

Agoro eu lhes pergunto:

Qual o bom entre vocês?
De vocês, qual o direito?
Onde está o homem bom?
Qual o homem de respeito.
De cabo a rabo na vida:
Não há homem perfeito

Aos 28 de julho 
Eu passei pro outro lado
Foi no ano 38
Dizem que fui baleado
E falam n'outra versão
Que eu fui envenenado

Sergipe, fazenda Angico 
Meus crimes se terminaram
O criminoso era eu
E os "santinhos" me mataram
Um lampião se acabou 
Outros lampiões ficaram

O cangaço continua
De gravata e jaquetão
Sem usar chapéu de couro
Sem bacamarte na mão
E matando muito mais
Tá cheio de lampião

E matando muito mais
Tá assim de lampião
E matando muito mais
Na cidade e no sertão
E matando muito mais
Tá sobrando Lampião

E aqui do inferno eu posso vê
Que aí tão matando muito mais
De gravata e caneta na mão
E isso não volta atrás
Devo voltar para achar a solução:
Matar todos os políticos abissais

Pra com minha tropa cantar:
Hoje eu tô feliz, hoje eu to feliz
Matei o presidente, matei o presidente
Hoje eu to feliz, hoje eu tô feliz
Matei o presidente, matei o presidente
Matei o presidente do país!

Gabriel Albuquerque

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