Minha poética farta

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Estou farto do meu próprio lirismo comovido
Daquele lirismo bem comportado e aprovado
Daquele lirismo adolescente e muito mal vivido
Do lirismo aburguesado, insensível e alejado
Do lirismo achado, pronto, moldado e alvejado

Estou farto do latim
Estou farto das ricas
Estou farto de mim
Estou farto das bicas

Daquelas moças bonitas
Dos poemas de amor
Dos poemas de dor
Daquelas elegias malditas

Da métrica
Do concreto
Do moderno
Da elétrica

Estou farto do Estado
Do funcionário público
Do sonzinho acústico
De sentimento revirado

Da melancolia das canções
Da hipocrisia das moções
Da volatilidade dos corações
Da desnecessidade das obrigações

Estou farto, não de tudo, não do mundo
Só por um segundo tornei-me um mudo
Pra olhar para dentro e me autodepreciar
E, a pensar, aprender um pouco com a Beauvoir

Estou farto de meia liberdade
Estou farto de Sartre e Heidegger
Estou farto da ontologia do ser
Estou farto dos donos da verdade

Estou farto do poemas depressivos
Estou farto de romances cativos
Até mesmo dos repentes defectivos

Quão farto estou desses poemas
Que não dá sequer pra ler e ver
Quiçá entender os seus temas
Que só falam sobre o "você"

Estou farto do amanhã e do outro dia
Estou farto do Chico, Gil, Caetano e cia

Estou farto de ter que ser homem
Viril, macho mesmo

Estou farto do vestibular
Estou farto de me enquadrar
Tal qual x e y num sistema linear
Nesse vai e vem poético 
Ainda me sinto dialético
Pois ainda sei o bê-á-bá

Gabriel Albuquerque

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