O que voltou do céu

pt

Depois da penumbra que pairava sobre nós
Sob o sol negro de dor e a nuvem cinza algoz
Vejo gaivotas em voltas, perdidas, nesse mundo tão atroz
Tais quais a mim, sempre assim, derrubado feito dominós

Subitamente tu voltaste ao sopro de vida
E tua mão por pouco não me tem por vencida
Por pouco não me soltas e me deixas a sofrer
Feito uma maçã na boca de um porco servido no buffet

(Ora, feito por você…)
(Quem mais faria a comida?)
(Eu sou homem, não faço essas coisas!)

Quem dera se eu rimasse tal como Matheus
O Batista, aquele mesmo, o próprio artista
Minhas rimas seriam mais sórdidas e tristes
Tal como insistes em perseguir os corpos meus
E fazer deles picadinhos para passarinho com alpistes

O pra sempre é sempre posto em cheque
E o "já era" pra escanteio 
O que não contempla teu leque
De possibilidades no devaneio
Doloroso pelo qual passaste
Desastre, num reque-reque
Ouço os ossos secos no meio
Do vale, mas não vale sequer
Uma só mulher…

Que bom que a senhora melhorou, amor
Vamos ver o que voltou, meu fragor
Do céu, meu amor, nem a afogou
Mergulhado na própria alma de dor
E nas lágrimas do seu duro labor.

(Será que ela lê até aqui?)
Os teus filhos te amam, assim eu acho
Cuidaram de ti como se fosse seus filhos
Apesar de tanto te colocarem pra baixo

(Um, pelo menos, te chama de mãe)

Mas, ora, não é essa a nossa função?
Mas, olhe para si, agora, vózinha
O mundo continua na cozinha
Ora, afinal, é o teu devido lugar
Onde toda mulher deve ficar
Pois os pais estão como fome
Devemos estar alimentados
Somos homens, se não o dinheiro some
Somos superiores, tá escrito naquele livro preto em cima da TV
Agora tu vê… Querendo me desobedecer?
Eu quem mando aqui. A casa é minha.
Comprei-a duas vezes, mulher!
Volte ao trabalho, mulher!
Estou com fome. Dê-me de comer, Jesé
Agora de pé aquela quem me faz café.
Volte ao céu, volte ao trabalho, mulher!

Quase usaste o roupão, de cuja madeira é feito o terno
O caixão, na gangorra entre o céu e o inferno
Emergia a fé n'Aquele que tudo pode fazer
Ora, em quem seria!? No Deus do poder?
Acho que não
O caixão… o caixão… acho que não

Tudo isso pra ver, e ver e ver

E ver e ver, o que voltou do céu
Éu, éu, éu, éu, o que voltou do céu

Vou escrevendo… só escrevendo sem pensar
Afinal, caro leitor, este poema não é pra ti
É pra mim. Ele não tem sentido nem pra onde ir
Ainda sei ler e ainda sei a canção do bê-á-bá
Por isso faz sentido pra mim. E só pra mim

Nem adiantar tentar
Interpretar a loucura
Que em mim habita
Feito um desvairado eremita

E agora, que estás melhor
Tudo volta ao cotidiano
De ano em ano pro pior

Depois que a nuvem cinza passou
E o inferno da obrigação voltou
Tu és massacrada pela dor 
A suportar o cotidiano pavor

Pra ver, e somente ver
A vózinha boa pra valer
E ver e ver e ver e ver
Aquela que voltou do céu
Éu, éu, éu

O que voltou do céu
O que voltou do céu
O que sobrou do céu

Dedicado à vozinha e o que dela convém.

03/07/2019 ~ 20/07/2019

Gabriel Albuquerque

Medium ↗

You're visiting from

System
👀