Escárnio diário: a porrada cotidiana, João

Abre-se meio olho esparramado em lago de cansaço
E, sem braço, mais um João se levanta ao som uníssono
Aflito e infinito do cantar de um sanhaço.
“Palhaço!” — diz o espelho ao João:
“Não vá se atrasar, pegue o trem!
Que vem vindo e voltando também.”
O vintém não vem do bem vil…
— “Viu, meu bem?!”
Pois, em cima da passarela, João, miss Brazil
Em baixo; miss Zéria!
E, passando pelo povo na estação,
João, com seu olhar de quase gente
E dentes de quase cão sob o chão,
O sol quente diz-lhe insolentemente:
“Crente, tome de teu sangue
Beba de teu suor, pegue a camisa,
Enxugue seu mangue
Coma de tua carne, sinta a brisa!”
João pisa no chão da estação
Bate a mão na madeira
Três vezes, três vezes, três vezes.
Às vezes, João pensa em desistir
E ir como bom crente que é
Até como bom João que é
Com fé de que o além é melhor
[que o aqui!
E no caminho de ida pro trabalho
Um atalho para a perdição…
João vê voando a lembrança que morre,
Suor é tanto que escorre e corre
E, de porre, molha toda a calçada
João vê verdade no povo da rua
E lua sobre a sua sofrida cervical
E a mulher de peito estendido nua
Servindo-lhe de aparato de sal
Aquele que salga o sonho irreal
Às onze horas começa o labor
Cujo terror assola a si e aos seus
Deus, então, diz a João em dó:
“Ó, filho meu, que horror!
Faça-se novo como os museus!”
Teus quase braços não aguentam.
Esquentam-se as patas sobre o chão
Tão quente que queimam João.
Não em vão: “hão de dar-me pão!”
Dão-lhe meia dúzia de réis
Cruéis migalhas sobre o chão
Tão miseráveis que queimam João.
Não em vão: “hão de dar-me milhão!”
Já o verme vermífugo João,
Um operário das ruínas das terras,
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida, declara guerra!
Terra, ó famélicos da fome
Come o que te conte!
Engula a seco o catarro,
E, ao Gosto dos Anjos,
Tome o último cigarro
Que Aquele sem nome
[te deu…
Eis que finalmente é depois das seis
Quando a fábrica apita e o trabalho
[termina
Todo mundo se manda da mina
Sem desejos de voltar aos reis.
Mas com a certeza de que,
Apesar de não querer,
João não paga pra vê!
O escárnio é diário;
A porrada, cotidiana!
(…)
Abre-se um quarto de olho
Abre-se um oitavo de olho
Quase não abre o olho
Não abre mais um olho
E os vermes vermífugos
Que antes eram João
Agora entram em sua boca
E comem sua carne pouca
A três palmos do chão…
E o Céu, então, diz-lhe a hora:
“Que a Terra lhe seja leve
Tu que pesaste tão pouco
Sobre ela outrora.”
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