Claro e fácil

Faz tempo que ninguém
Poeta um poema
Com palavras fáceis,
Claro e fácil, claramente,
Sobre as coisas que acontecem
Todo dia em nosso tempo e lugar.
Tem os que perdem o sono
Pretendendo ser o dono
Das palavras: ser a voz do que é novo!
Mas a vida é sempre nova
E acontece de surpresa,
Caindo como pedra sob o povo.
Tem uns que põe linhas no caderno
Pretendendo falar sobre amores
platônicos branquinhos: ó, brancas dores!
Mas se esquecem do novo
Acontecendo aqui e agora
Caindo como tiro no povo.
(Aparentemente não no nosso povo!)
Oh, que horror é saber
Que a vida é verdadeira
Mesmo sem saber o porquê!
Mas se sabe a cor da vida:
Branca, tal qual a cor da bandeira
(alvi-brasileira!)
A cor da morte é o preto
Qual os que vivem na favela.
Mas é difícil ver o gueto
Daqui de cima pela janela…
Baby, eu lamento!
Mas não tenho tempo
Pra sentir suas dores. (alvi-dores!)
Até as minhas,
já não mais aguento!
Amor, olhe em volta!
Mas não se confunda:
Essa gente imunda
Chora a dor da revolta.
Mas a minha, alvi-revolta
não serve nem pra limpar a bunda!
Quem me conhece me pede que eu escreva mais…
Acontece é que nada de original sai do meu coração
Afinal, tá no jornal todo dia o que seria meu poema.
Mas o meu lema é clamar no deserto do sertão
E chorar e chorar. E chorar a dor do irmão.
Quando escrevi isso, hoje de manhã,
Não era um poema. Era o povo todo
Pedindo e suplicando por socorro!
Com mil milhões de vozes ecoando
No meu corpo todo, feito eco
dentro de um esgoto podre! (alvi-esgoto!)
Talvez este rabisco te lembre algo…
Talvez você esteja são e salvo…
Mas lembre-se de que existe abismo
Entre
pele alvi e pele alvo!
E eu quero que este poema torto e sem sentido
Feito faca mal amolada
Corte nossas carnes brancas e estáticas!
E finalizo dizendo pra você branquelo que nem eu:
— “Você que é muito vivo. (E dá pra ver na pele)
Me diga. Me diga qual é o novo.
Qual é o novo?
Qualé o novo?!
Qualé o novo?!
Me diga qualé o novo!”
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