Divina musa inspiradora

(Vos confesso que desejo de cair convosco em cama
Vos peço para não desejardes o meu cair em coma
Sem, ao menos, dar-lhe aquilo que ama
E escrever, no teu idioma, o que tu tens como axioma)
Tua mente moldada, preceitos, perfeitos, divino
Não tão perfeitos assim, assum de preto, para mim
Tu’alma, soldada, solda a hora do que soa um hino
Perfeito… Vivendo sempre sem perspectiva do fim
Como a musa Beatriz, inspiradora minha e de Dante
Cante o que a vida convém, só tu, Deus e mais ninguém!
Amém, desejo que o teu coração
Aquele que, em vão, primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver
Moa-te como quem mói um pão, em meio ao espírito perturbado: trovão são!
Que todos saibam o mundo que encontrei em ti
Um pouquinho do teu amor, saúde em si
é um descanso para loucura que em mim habita
Despi, diluí de ti, deserto aí, como um povo eremita
Tu, ó Beatriz, canta o que minh'alma proclama
E nos olhos traz o amor, a minha dama
E tudo quanto olhas se enobrece
E todos se voltam pra vê-la, e aquece…
Os corações, do seu doce aceno e alento, a chama
Ouvir tua voz é, para mim, como sentir cheirar a jasmim gelo
É como um coração cativo a ouvir teu peito vivo
É como o doce do teu ruivo cabelo, de amor sê-lo
É como o castanho dos seus olhos, sedativo, psicodélico e apelativo!
Agradeço ao divino poeta florentino
Léxico pelo qual busco a ufanista
Chamada Beatriz, sereia de vil ardor clandestino
Perfeccionista, Humanista, Calvinista
Pactua, ministra contratualista!
e tanto em tudo em torno refugia
aquele intenso e súbito esplendor,
que meu olhar sustê-lo não podia.
Ó divina Beatriz, ó puro amor!
"Ofusca-te", falou-me, "a refulgência
que não cede lugar a outro valor.
Vês a Sabedoria, a Onipotência
Que aos homens entra a terra e o céu, e a estrada
abriu, ao fim da longa penitência."
Como a flama que é acesa e dilatada
Teu jeito tão próprio, tão longamente me reteu o amor
E minha dor acostumou-se com a tirania tua
Que, se a priori, parecia-me rude e sem pudor
Suave agora me serve de tua pele branca como a lua
Beatriz, nova como em noviça, de preta roupa
Beatriz, por ti escrevo cem mil "Vita Nuova"
Reitero minha fala: como quem cala
A muda (voz) da árvore, um glamour de índios de Chateaubriand
Tambores tão bons, uns quantos radares, antenas de raça tantã
Tudo isso para conciliar essa de ser teu maior fã!
Eu te amo, mas não tanto, se é que me entendes.