Carta aos Tios Januário e Joaquim, 74 e 17

(1974, Joaquim ao Tio Januário)
Rua Bárbara Beatriz, meia cinco sete
Você ensinano pra Elizabeth
A escanção da canção do amor de bar…
(Lembra que tempo feliz?)
Ai, minha muita saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor ruísse em mar…
Minha pobre garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Castelo de amor que se perdeu…
Mesmo a tristeza tua era mais bela
E, além disso, se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor…
É, meu tio, só resta uma certeza:
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor…
(2017, Gabriel ao Tio Joaquim)
Rua José, setenta e sete
Eu saio correndo do pivete
A alcançar o elevador…
(Veja que merda de país!
Saudade de ouvir tua dor
Ao falar da tropical Paris!)
Tua pobre alma nem sabia
O ponto em que a cidade ruiria
Essa vida nossa que já deu…
Tua janela não passa de um quadrado
E hoje só vê cimento armado
Onde antes se via o Redentor…
É, meu tio, só resta uma certeza:
Estão acabando com a natureza
É melhor plantear o nosso amor…
Paródia de Carta ao Tom 74, Vinícius de Moraes