Cântico Guarani
Para este poema que vos preparo, recomendo ouvir estes áudios de fundo, ao mesmo tempo, e ler cada verso bem pungentemente, como se fosse…

(Parte I)
Ainda não se ouvia o ai do sabiá
E nem Jaci sabia que assobiava lá.
O índio ia indo, inocente e nu
E no cauim ninguém sentia,
Afim da essência do caju.
Não navegava o naus abaixo do Equador,
Aqui, sem sonhos maus, não há Anhanguá,
Nem cruz, nem Jesus, nem dor.
E o índio ia indo, inocente e nu
Sem lei, sem rei, sem mais luz
Ao som do sol do uirapuru.
Não navegava o naus abaixo do Equador,
E, à terra chã, Tupã descia sem pam de tambor,
Mas ainda não se ouvia o dó das juritis.
E eu já sonhova com a cor, a dor
Num país feliz com tom e som de amor.
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(Parte II)
Ainda não se ouvia o ai do sabiá
E nem Peri sabia que assobiava lá.
O índio ia indo e indo sente-se nu
E a canhã para ninguém mentia,
A fim de Tupã dar curumim de Jaú.
Não navegava o naus abaixo do Equador,
Aqui, terra de paus, que escoa para o mar
A custa de dor a pingar o suor do imperador.
E o índio ia indo e indo sente-se nu
E de seus olhos jorravam pus
Sob o sol da mata do embiruçu.
Não navegava o naus abaixo do Equador,
E o uirapuru canta à lua azul cantos de dor
E de amor ia o rio Jarí até os de Buritis.
E eu já sonhova com a cor, a flor
Num país feliz com dom e som do terror.
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(Parte III)
Ainda que não se ouvisse a dor do sabiá,
No Guarani, Ceci já sabia os sóis de cá.
O índio, sem mãe, não dava a mão açu
E a má puã do clã que vinha, logo não via
Que Jaci beijara Guaraci à beira do Iguaçu.
Não navegava o naus abaixo do Equador,
Aqui, cacimba por tudo quanto é lado há
Que, de tupinambá, morre afogado em labor.
O índio, sem mãe, não dava a mão açu
Da sina que até a canoa rema contra a cruz
Sobre o sol de Sumé que voa sob Jacu.
Não navegava o naus abaixo do Equador,
E o urubu paira sob aquele céu de odor
Cuja fonte manava dos corpos dos Maris.
E, à pedra butantã, Arapuã ia sã de ardor
E já sonhova com um país feliz sem dor.
(Onde não havia quiçá sol a se pôr…)