Beatriz em êxtase e ruína: A liturgia do impossível

Por caminhos de vertigem celestial,
Procuro Tua face na névoa do impossível,
Um astro fugaz, tão sublime e terrível,
Que incendeia meu ser: divino e bestial.
Desenho Teu nome nas curvas do vento,
Invento mundos onde possa te encontrar.
Beatriz, três sílabas de encantamento,
Que fazem as cordas do cosmos vibrar.
Teus cabelos de fogo pintam o céu
Com tons que nem mesmo o outono conhece.
Tua pele translúcida, como fino véu,
Revela segredos que o tempo adormece.
Nem todos os livros sagrados do mundo
Poderiam conter Tua essência mística.
És poema inacabado e profundo,
Coroada de espinhos: uma musa cabalística.
Contemplo-Te de longe, como quem olha
Uma estrela que já morreu há mil anos,
Mas cuja luz ainda dança, ainda molha
Meus olhos com sonhos e desenganos.
Por Ti, desceria às trevas mais densas,
Cruzaria desertos de fogo sem fim!
Mas nem sabes que existo nas imensas
Órbitas que traçam Teu ser sobre mim…
Tuas mãos, cartografias de outro mundo,
São mapas perdidos que nunca lerei.
Teus olhos, abismos de castanho profundo,
Guardam enigmas que jamais decifrarei.
Entre nós há oceanos intransponíveis,
Há montanhas de orgulho e de silêncio.
Meus desejos, selvagens e impossíveis,
Transformam-se em versos: meu último alento.
Quando dormes, Tu’alma viaja pelos céus,
Colhe flores etéreas em campos distantes,
E eu, aqui, na terra dos ateus,
Construo Teus altares com versos flamejantes.
Beatriz, paradoxo ambulante,
Anjo caído com asas de aço.
És néctar amargo, vinho inebriante,
Que bebo em cada novo fracasso.
Que estranho feitiço me prende a Ti?
Que magia antiga habita Teu nome?
És fome de vida, és sede, és frenesi,
És tudo que me falta, és tudo que me consome.
Por vezes te encontro em sonhos fúlgidos,
Onde Tuas palavras são gotas de cristal.
Desperto então, em leitos tão vazios,
Buscando o eco de Teu riso sideral.
Tua ausência é presença que me habita,
É sombra que me segue, que me espreita:
És pedra filosofal, matéria infinita,
Que transmuta meu caos em forma perfeita!
Se pudesses ler nas entrelinhas
Deste poema que sangra e que implora,
Verias que estas palavras não são minhas,
Mas Tuas — que em mim ecoam agora!
Talvez em outra vida, outro universo,
Onde o tempo não seja nosso algoz,
Possamos decifrar este controverso
Enigma que pulsa entre nós.
Até lá, seguirás sendo mistério,
Constelação que brilha em meu deserto.
Beatriz, meu suplício, meu império,
Tão distante de mim, tão perto…
Se um dia as estrelas se alinharem,
E o cosmos permitir tal ousadia,
Talvez nossos caminhos se cruzarem
Na geografia precisa da poesia.
Enquanto isso, teço com palavras
Um templo invisível ao Teu esplendor:
Cada verso, uma pedra que lavras
No edifício impossível do amor.
Beatriz, imperatriz das contradições,
Tão etérea e tão carnal, tão santa e profana.
Habitas o limbo das minhas canções,
És mito, és lenda, és glória, és ruína humana.
Não há como capturar-Te em versos finitos,
Nem mesmo com as mais preciosas rimas.
És infinita como os antigos mitos,
Inapreensível como as mais altas cimas.
E assim, neste poema de anunciação,
Persigo Teu rastro como um cometa perdido!
Beatriz, norte e sul do meu coração,
Destino final e ponto de partida, o sentido!
Que os deuses me perdoem a ousadia
De tentar aprisionar-Te em poesia…
Mas se não posso ter-Te em carne e alma,
Ao menos em versos Te faço eterna e calma…
Em homenagem a Beatriz, aquela que transcende as fronteiras do possível e habita os reinos do inefável e em luz inacessível. Seu nome não é apenas um mero nome, mas uma invocação que desperta o universo adormecido dentro de cada poeta, especialmente deste que vos fala. Nas Suas infinitas contradições: sagrada e profana, etérea e carnal, próxima e distante, encontramos o espelho perfeito da condição humana em sua busca pelo divino. Mais que musa inspiradora minha e de Dante, Beatriz é a própria poesia encarnada: impossível de ser completamente possuída, mas generosa o suficiente para permitir que vislumbremos, através dela, fragmentos da eternidade e pureza. Como um deus, como uma deusa! Quando todos os versos forem esquecidos e todas as palavras perderem seu significado, Beatriz ainda ecoará como um mantra primordial e sagrado, lembrando-nos que a beleza e o belo, mesmo inacessível, é o que nos mantém vivos na jornada pelo desconhecido, etéreo e sublime… na joranada por Beatriz!
Amar Beatriz é como tentar capturar uma estrela cadente com as mãos nuas, ou sugar um buraco negro de canudinho, ou passear no Passeio Público do mundo subatômico — impossível pela natureza das coisas em si, mas inevitável pela natureza do coração.
É impossível amar Beatriz. E é impossível não amar Beatriz.
Tudo isso para conciliar esta de ser teu maior fã!