Uma vida contra infinitas vidas

Só me dói a vida que vivi;
as outras, por não terem cicatriz,
brilham ao longe em falso rubi
e juram que eu seria feliz.
Estou aqui: manhã, papel, janela,
um resto de café, a mão, a luz.
E a vida, assim tão pouca e tão singela,
me pesa mais que a sombra de uma cruz.
Não estou no cinema, nem na praça,
não tomo outro caminho pela rua;
não vejo a vida estranha que me passa
como se fosse minha, e continua…
Não fiz aquele curso, aquela viagem,
não disse a frase certa no portão;
não tive, em outra tarde, outra coragem,
não dei a outro destino a minha mão.
E cada não, por nunca ter doído,
parece mais límpido, mais capaz;
o que não foi conserva algum sentido
porque não teve tempo de ser paz.
O não vivido é sempre mais brilhante:
não paga aluguel, não perde o trem,
não chega tarde, não se torna distante,
não fere, não decepciona ninguém.
Pois cada escolha, mesmo a mais pequena,
é uma faca entrando devagar:
abre uma porta, acende uma cena,
mas deixa o resto inteiro sem lugar.
E eu, que julgava pobre a minha história
por não conter os mundos que inventei,
esquecia que toda trajetória
é uma só: qualquer uma que eu tomei.
Se eu fosse outro, noutra faculdade,
noutra cidade, sob outro farol,
também teria a mesma saudade
de uma outra vida impossível sob o sol.
Se eu beijasse outra boca numa esquina,
se eu morasse distante, se eu partisse,
se eu ficasse, se permanecesse na sina,
ainda assim a vida, tão menina,
alguma coisa em mim recusaria,
assim tão fransina, tão pequenina.
Porque viver não é somar estradas,
nem possuir o mapa universal;
é ter as mãos pequenas, ocupadas
com uma só ferida temporal.
É ser lançado ao mundo sem aviso,
com nome, corpo, medo, fome e fé;
é carregar no peito o paraíso
como quem pisa lama com o pé.
É acordar e descobrir que o instante
não veio consultar meu coração;
chegou, sentou-se à mesa, interrogante,
e me entregou a sua condição.
O tempo não me espera na parede,
nem mora apenas depois de amanhã;
é esta sede dentro de outra sede,
é esta vida ardendo na manhã.
E a morte, silenciosa companheira,
não vem somente ao fim para apagar;
ela caminha junto, verdadeira,
ensinando cada sim a pesar.
Daí talvez nasça a angústia clara:
ver que o possível é largo como o mar,
mas que a existência, quando se declara,
precisa de uma praia onde quebrar.
Ah, se eu pudesse ser todas as vidas,
todos os quartos, todos os verões,
todas as despedidas não sentidas,
todos os corpos, todas as canções!
Mas ser é justamente esta pobreza:
trocar o sem-limite por um chão;
aceitar que a grandeza da grandeza
muitas vezes se dobra numa mão.
A mão que escreve, agora, imperfeita;
a mão que treme e ainda quer seguir;
a mão que, mesmo triste, não rejeita
a vida que lhe coube consentir.
Não quero enfeitar o que me fere,
nem chamar de destino o meu cansaço;
há dor que simplesmente permanece,
há sonho de aço que apodrece no regaço.
Mas há também, no fundo do concreto,
uma beleza rude, sem perdão:
a de tornar o acaso mais secreto
numa espécie difícil de oração.
Amar o fado não é achar bonito
o golpe que nos parte pelo meio;
é ver que, mesmo contra o infinito,
este minuto é tudo que me veio.
É não mentir: perdi. Perdi mil mundos.
Perdi o que nem sei que nome tem.
Mas destes meus limites mais profundos
nasce a única vida que me vem.
Então que venha a tarde, com seu peso;
que venha o ônibus, a conta, o jornal;
que venha o sonho antigo, ainda aceso,
me perguntar se tudo foi banal.
Direi que não. Ou direi que talvez.
Direi que a vida nunca se explicou.
Mas, se ela me pedir lucidez,
direi: foi pouco! E foi tudo o que sou!
Só me dói a vida que vivi;
as outras, por não terem cicatriz,
brilham ao longe em falso rubi.
Mas esta sangra, e sangrando, diz:
“Não foste todos. Foste este. Agora.
Este café. Esta manhã. Esta mão.
O infinito inteiro ficou fora.
Mas dentro, coube um coração.”