Poema de saudade para minha filha

CANTO I — da ausência
sonhei-te muito antes de poder tocar-te,
e a arte de te amar veio primeiro:
amar-te foi anterior a cada parte.
o mundo que ganhei é estrangeiro:
por inteiro eu conto os dias do caminho
que ainda me separa do teu cheiro.
primeiro a casa cala; então, sozinho,
caminho de olhos fechados: beijo-te, aflito,
e o rumo dos teus sonhos adivinho.
a saudade vigia o que eu evito:
teu peso adormecido no meu braço,
teu riso de manhã, o choro, o grito.
e eu, que repito teu nome no que faço,
daria os anos todos por uma hora
de morar outra vez no teu abraço!
a vida me empurrou de casa embora.
eu não parti de ti: parti por ti,
e essa é a dor que a noite não devora:
a de caber no mundo, e não aí.

CANTO II — da espera
teço os dias como quem tece um manto:
enquanto é manhã, faço planos de te ver;
de noite os desmancho, e eu choro tanto…
no entanto, o trabalho é o meu prazer
mais torto: cansar é chegar perto,
dormir é apressar o amanhecer.
sem me ver, o teu quarto segue certo:
a cama feita, o ursinho sentado,
tudo à espera, nada está deserto.
decerto o cachorro dorme no teu lado
da cama que ficou, e ali me espera
como eu te espero: velho e calado.
num recado, tua mãe conta, sincera:
“já lê sozinha, e perguntou, surpresa,
quando é que o pai termina”… e eu, que era
pedra, virei um rio em cima da mesa…
respondi “logo, flor”, e essa palavra
é a única moeda que não pesa:
riqueza que no peito o tempo lavra.

CANTO III — do reencontro
e o dia enfim chegou, e não foi sonho!
risonho, desci no ponto, no mesmo barro,
com o coração batendo alto e medonho.
fiz a pé o caminho, larguei o carro,
que a estrada onde aprendeste a caminhar
se cruza devagar, e eu não desgarro.
o portão conheceu o meu chegar:
sem errar, rangeu como range há vinte anos;
o cão ergueu a orelha sem ladrar
e, a chorar, veio em ganidos soberanos:
soube que era eu antes de me ver.
e atrás dele, desfeitos os meus danos,
tu… parada no sol, meio menina,
meio mulher… tão crescida, tão querida,
me estudando o rosto, a reconhecer.
e então correste! e o resto foi a vida
inteira fazendo enfim algum sentido:
teu cheiro de verão e a dor esquecida.
querida, tocou a cabeça no meu batido
coração, e chorei… chorei manso
por todo o tempo que não foi vivido.
e comovido, te apertei tanto, tanto,
que o mar coube ali dentro, e coube o medo,
e a saudade se liquefez em pranto!
cheguei, filha, cheguei, filha!
quem volta, chega cedo. mesmo por muitas ilhas,
voltei. eu voltei!