Populus: nosso cão

De tanto ver fiquei cego
Surdo de tanto escutar
Ainda me sinto gente com ego
Pois ainda sei o bê-a-bá
Em meio a toda treva
Mil fumaças perdurar
Da bomba exemplar
Que a dor, embora leva
Em meio a toda escuridão
Irmãos, de tudo, a duvidar
Do mais banal exemplar
Que o mito traz a ilusão
Em meio a todo filme de terror
O começo é com cientistas
Sendo ignorados em estupor
E desvalorizadas como ametistas
Em meio a tudo de pior
Vem-me a mente Belchior
Que escrevia ontem sobre o hoje então
Sobre Populus, nosso cão:
O escravo, indiferente, que trabalha sem dizer não
E, por presente, tem migalhas sob o chão
Populus, nosso cão…
E vai seguindo nessa gradação…
Primeiro, nosso pai, segundo, nosso irmão
Terceiro, agora é ele, agora é ele
De geração, em geração, em geração
Na crítica tão explícita, pouco prevista:
Sobre o congresso do medo internacional
Ouvimos o segredo do enredo final
Sobre Populus, nosso cão:
Um documento oficial, em testamento especial
Sobre a morte, sem razão, de Populus, nosso cão
Nos alertava das mãos apressadas do patrão
Em roubar e derramar sangue de quem é fraco, inocente
Aquele que tira o pão das mulheres, entorpecente
Suor de abraços noturnos de quem não mente
E de quem é confiante que o dinheiro vence infalivelmente…
E falava sobre o que nos é real: medo da morte
Pois quem sucesso ou grana não tem
Tem que ter bastante sorte
Para escapar salvo e são das balas de quem "lhe quer bem":
Políticos, patrões, Doutores, chefões
Consumistas, mercadores, conservadores
Arrivistas, burgueses, não-sonhadores
Não mexam com a educação, babacas!