Poema de sei lá quantas faces

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Sei lá se sete são sete mesmo.

Quando nasci, o próprio anjo Gabriel
Desses mais brancos que bala de papel
Ao léu, feito manjuba, disse: vá! Sê tu o réu

Condenado a ser, e somente a ser
Mas o que eu faço agora, José?
Se o que sei, não sei, ser sequer
Com medo, Josué capítulo um, lê

Talvez, se as tardes fossem azul
Não houvessem tantos desejos
Aqui nesse quente e frio sul.

Todo dia com alegrias ou dores internas
O bonde, todo dia, passa cheio de pernas
Brancas, pretas, amarelas; todo dia essas
Pernas amarelas, pretas, brancas, de Gade

As damas com suas vergonhas altas cobertas por muitos panos
E os quase portugueses que, de tanto vê-las, vergonha não tinham
Todo dia, todo dia, todo dia nos bondes
E por falar nos bondes…

Lugar hostil, monolítico, de careca rodas
O bonde, o bonde, o bonde das sei lá que horas
O bonde com seus lobos de olhos grandes
E carecas, por cujos corpos são atraídos pelas glandes
(e pelas vergonhas saradinhas, não mais das meninas de Gade, mas da mãe, da irmã, da prima, da amiga, ou daquelas deles mesmos)
Tudo isso no bonde das sei lá que horas

Olhe para mim: a diferença entre os iguais
O igual no meio dos diferentes
Não sei bem, não sei quem, se sou alguém
Apenas tô aí… sei lá o porquê…

Por isso tô nessa infinita highway da contemplação:
Contemplo-me a tempo de me conter
Meço-me metrificadamente com selo de metrificação
Sou na medida que quero ser
Mas não li Heidegger, nem Nietzsche, nem Che
Viajando na ontologia do viver.

Mundo mundo, vasto mundo
Ah, se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não uma solução
Mundo mundo, vasto mundo
mais vasto é meu coração

Solução, rima Raimundo
É chagado o fim do mundo
E tudo pode acabar

Solução, rima Raimundo
É chegado o fim de tudo
E o mundo pode acabar

Esse sou eu, de sei lá quantas faces
Mas uma eu sei: que coração
Parece não rimar com solução.

Eu não deveria pensar em saber, se é que sei pensar
Mas essa lua, essa vodka, essa boca
Me bota comovido com o diabo.

O próprio recorte, em versos, de minha loucura mental e insanidade literária. O que eu estou fazendo na Candelária? Placas, nomes, protestos, rimas, bombas, cassetete, repressão, repressão, cassetete, gás, bomba, máscaras, corrida, choro, repressão, estudantes, cassetete, bomba. Pê eme, em protestos, é cavalaria treinada. Estado cria o que é mau.

Vita brevis, ars longa, occasio praeceps, experimentum periculosum, iudicium difficile

Gabriel Albuquerque

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