O que sobrou do céu
Todo dia vem-me a vontade
Ou de escrever sob o virgem véu
Ou de desenhar a tempestade
E ver, e ver, o que sobrou do céu
Pois o "pra sempre" sempre acaba
E hoje já era o que era pra não ter fim
Como quem morre na lenha braba
Como quem labuta tão tão afim
E sua mão e sua mão em mim em mim
Me segura quase sem forças nenhuma
Ô, vózinha, aquela que desde Inhaúma
Carrega baldes em teus cabelos de cetim
Queres gritar, mas não tens ar
Tentas falar, mas não tens ar
Queres fazer, mas não tens poder
Força sequer, pulmão sequer
Tudo isso sem querer
Te amo, vózinha
Receba minha calma
Como a Corsa que suspira pelas águas
Por ti suspira a minh'alma
Eu olho para o céu
De onde vem teu socorro
Pergunto a Paizinho do céu
Por que sofrer como cachorro?
Eu olho para os montes
De onde vem teu amparo
De onde vem as águas das fontes
Então, com teu Deus, me deparo
E quando olhei aquele clarão
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu
Por que tamanha judiação?
O que sobrou do céu?
Tem alguma coisa ali?
Senão em vosso coração?
E vossa alucinação…
O que sobrou do céu
O que sobrou do céu