O Menino-Portal

Eu tinha uns quatro anos. Foi naquele domingo de sol, lá pelo final da tarde, quando estávamos voltando da casa da vovó. Papai dirigia devagar demais para ele e rápido demais para mamãe, que, apesar do medo de estrada que tinha, dormia no banco da frente como um filhote de canguru dorme tranquilo na bolsa de sua mãe. Enquanto eu ficava entre olhar pela janela contando as árvores que corriam para trás como soldados em fuga e tentar entender o que aquela música que tocava no rádio queria dizer. O rádio tocava baixinho uma música que eu não conhecia, mas eu gostava muito dela porque o pai sempre cantava junto. Hoje, com tremendas saudades dele, a música, Peace Frog do The Doors, tornou-se uma das minha preferidas.
De repente meu pai pisou no freio e o carro parou numa vezada só. O caminhão velho que estava à nossa frente, que parecia carregar alguma coisa muito estranha, tombou. E capotou. E feio.
— “Misericórdia!”, exclamou o pai.
E a minha mãezinha acordou assustada. Eu me levantei no banco de trás e vi o que eles estavam vendo: na estrada bem à nossa frente havia corpos espalhados como bonecos quebrados. Eram homens de pele escura vestindo o que parecia ser roupas de trabalho sujas e rasgadas. Alguns tinham chapéus caídos ao lado da cabeça e outros estavam de braços abertos como se estivessem voando. Minha mãe começou a chorar. Ela grita para que eu feche os olhos e tenta, sem sucesso, tampar minha visão, mas impossibilitada pelo próprio medo que sentia, tamanha dor e agonia que aquele cenário que víamos bem diante dos nossos olhos passava. O sangue escuro se espalhava pelo asfalto quente. A carroceria amassada e vidros espalhados que brilhavam como diamantes no sol. O cheiro forte de ferro e gasolina entrava pela janela entreaberta do nosso carro. Gasolina e sangue se misturando. Que terrível! Vários corpos foram expelidos, quase como se o caminhão, empanzinado, tivesse vomitado-os. Eles estavam agonizando para a morte. Sangrando na avenida. Eu contei pelo menos uns 10. E, com certeza, tinha mais corpos dentro daquele baú metálico ou o que restou dele.
— “Não olha, Gabriel, não olha, Gabriel!”, gritou a mamãe repetidas vezes.
Mas eu já tava olhando. E foi aí que eles entraram em mim e tudo mudou. Dos corpos começaram a sair coisas que pareciam fumaça, mas não eram fumaça. Eram como pessoas, mas não bem pessoas, feitas de ar translúcido que se mexiam devagar saindo de dentro dos peitos dos homens mortos. Elas se levantavam e ficavam em pé olhando para os próprios corpos no chão com uma tristeza que eu podia sentir no mais profundo do meu âmago. Essas almas pareciam estar desesperadas. Nessa hora todos os meus pelinhos de meu corpo franzino ficaram arrepiados e comecei a chorar. Mas com tanto medo, não consegui gritar. Foi quando todas aquelas coisas aumentaram de tamanho, se juntaram bem em cima do caminhão e começaram a olhar para o carro do meu pai. Eu estava atônito, não conseguia sequer respirar. Pai e mãe não estavam vendo o que eu estava vendo. Então um ruído estrondoso começou a apitar em meus ouvidos e vi todos aqueles seres amorfos vindo em minha direção de um jeito muito assustador, ainda mais para o Gabriel de quatro anos… Elas atravessaram o vidro do carro como se fosse água e entraram em mim pela boca, pelo nariz, pelos ouvidos, pelos olhos e por outros orifícios mais. Fui imobilizado na hora. Lembro claramente com riqueza de detalhes e sensações. Senti um frio e um calor ruim ao mesmo tempo. Tive febre imediatamente. Meu corpo de branco ficou transparente! O primeiro toque foi gélido, mas, no fundo, esquentava como febre de quarenta. Parecia que eu estava engolindo gelo seco. O coração batia descompassado. O resto do corpo ficou mole, leve, como se eu não o controlasse mais naquele momento. Via cores que não existiam: um roxo inebriante que tinha gosto de terra molhada, um amarelo que cheirava a laranja podre. Tudo rodava devagar e rápido, devagar e rápido, devagar e rápido, como se o tempo usasse duas velocidades. Senti cócegas nos ossos (como isso é possível?), senti formigamento nos pensamentos (isso é muito possível!). Cada respirada trazia um nome novo, cada expiração levava um pedacinho de medo. E fui voltando à consciência. Eu me via por dentro. E lá no fundo, bem miúdo, ouvi um coral uníssono de vozes dizendo:
— Obrigado, obrigado, obrigado.
Meu pai soltou um palavrão baixinho, quase que separando as sílabas. Ligou o carro, desviou daquilo, passou devagar pelo desastre que ocorrera há poucos. O sol já azulava laranja no horizonte cinzento. Mamãe rezava em voz trêmula, como quem costura um rasgo no mundo, como quem clama piedade por aquelas almas. Minha mãe era dessas… Eu encostei a testa no vidro ainda quente e deixei as vozes dentro de mim falarem baixinho. Elas vinham mansas e depois foram se ajeitando, umas chorando de cansaço, umas sem entender o que tinha acabado de acontecer, umas lembrando do cheiro de casa, dos filhos pequenos, da rede balançando no quintal de terra batida. Naquela hora eu descobri o que era estar cheio de alegria triste: doía e aquecia junto, numa dualidade sinistra e bizarra. Poucos minutos depois, continuava a não entender direito o que acontecera, não sabia se estava somente delirando pelo choque traumático que foi ver aqueles corpos dilacerados no chão daquele acidente horrível. Mas sabia que aquela visão era extremamente real. O rádio tocava de novo, meu pai tinha ligado de novo, no seu jeitão estoico marcoaureliano, mas parecia distante, como se alguém escovasse cordas de guitarra dentro d’água. O pneu cantava longa nota na pista, cada vez mais baixa e eu já não sabia se a música vinha de fora ou de dentro. Já não escutava mais o externo, que fora totalmente suprimido pelo interno. Agora eles moram comigo. Falam todos os dias, toda hora. Mostram mapas de lugares onde o sol nasce de lado e pinta a terra de cobre. Ensaiam palavras de línguas que sumiram dos livros. Ensinam-me coisas.
Depois de uns meses, conhecia todos eles. É como se houvesse um outro mundo paralelo dentro de mim. Sabia de quem era cada voz, cada jeitinho. Cada um com uma vida diferente, mas iguais pela mesma pele escura, pelo mesmo vilipêndio do sofrimento e escárnio diário e pelo mesmo sangue rubro derramado no findar trágico de suas poucas vidas.
Mamãe acha que eu fiquei estranho depois daquele fatídico dia. Ela não sabe que agora somos muitos dentro de um. Que quando eu falo sozinho, não estou sozinho. Que os mortos da estrada me escolheram para carregar suas vozes como sementes plantadas no meu peito que um dia vão crescer e florescer em canções que ninguém ainda escutou. Como um Menino-Portal.



Indians scattered on dawn’s highway bleedin’
Ghosts crowd the young child’s fragile eggshell mind