Coração que morre a cada canção

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A primeira morte é muito difícil
Depois habituamo-nos a morrer
E a vida que vai como um míssil
Chora feito criança sem porquê

E olha em volta como um cego a ver
Rastejando-se em cimento velho e vil
No sertão do meu coração bambolê
Girando e girando no coração do Brasil

Pois aqui a morte é tanta
que só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício, bar e bazar

D'alma perdida sedenta pela paz
Que jaz no teu corpo, teu cabelo
Antes sê-lo, serve de teu capataz
Atrás desta blusa, a dor de cotovelo

Meu corpo sobre essa pele tua
Como um cão que uiva pra lua
Urge em meus ouvidos até suar
O soar estrondoso: ver-te pela rua
O olhar estrondoso: ver-te toda nua

Pela dádiva divina, pelada e desnutrida
És elástica e magricela, ah, doce menina

Tudo mentira, tudo cinema, apenas cenas
Pois quando, em ledo engano-me, acenas 
Co'as tuas mãos brancas serenas, baila…
Baila, ó beata bailarina!

Amar é crime, nem a paixão me redime
Da obsessão do sublime, a que submeti
E menti, num súbito esperançoso timbre
Como um time que, ao perder, a valer, ri

Amar é desastre, destarte dos dezessete
Antes de dez de dezembro de 1967

Ah, coração que morre a cada canção
Baião, se engane não, tem meu irmão
Que, fora da lei, é procurarado no sertão
Pra lá de onde jaz meu morto coração

Aprisionado estou na vastidão de tua liberdade
Ó, beldade, sê tu então, tenha de mim vontade

Bailarina bela, brinca e brinde do bom bailar
E a nossa palavra será tão humana como o pão
A soar um palavrão, a se mostrar como é:
Te lança um anjo com espada na mão e no pé
Zele, nesta noite e assim por diante, pelo vosso coração

Ah, tenho quinze anos 
De sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força do destino
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues...

Gabriel Albuquerque

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